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Happy​ ​hour​ ​no​ ​INCITI/UFPE​ ​lança,​ ​nesta​ ​sexta​ ​(20),​ ​projeto​ ​em​ ​rede​ ​com​ ​outras​ ​nove​ ​cidades brasileiras

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Com os temas de mobilidade urbana, orçamento público e direito à cidade, o projeto MOBCidades
reúne mais de 50 movimentos e organizações da sociedade civil em todo o Brasil para articular ações

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A indispensável reinvenção da cidade e o Instituto Recife de Gestão

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Discurso de Francisco Cunha, presidente do Conselho de Administração
do Instituto Recife de Gestão, 
no lançamento do projeto Recife 500 Anos da Prefeitura do Recife 

Não é desconhecido por ninguém que se tenha dedicado a refletir um pouco sobre a razão do mal-estar que sentimos nas cidades brasileiras, em especial no Recife, que elas se encontram à beira de um colapso colossal.

De fato, com o travamento global da mobilidade provocada pela “democratização” do acesso aos veículos motorizados individuais (gravemente acentuado no Brasil pela lacuna de décadas sem planejamento urbano adequado e sem investimentos estruturadores em transporte coletivo), abate-se sobre a cidade brasileira do Século 20 (projetada pelo e para o automóvel) uma crise sistêmica de grandes proporções e sem precedentes históricos conhecidos.

Situação ainda mais agravada pela complexidade do objeto em questão. Não é descabido dizer que, hoje em dia, as cidades, especialmente as metrópoles, constituem-se num dos objetos mais complexos de gerir da humanidade. Não existe nada sequer parecido, seja para o bem ( a “maior invenção da humanidade”, o “berço da civilização e da democracia” etc., afinal a cidade é tudo isso e muito mais); seja para o mal (as emissões de poluentes, por exemplo, segundo algumas contas, estão concentradas cerca de 70% nas cidades que representam apenas cerca de 2% do território do planeta).

No Brasil, em especial, as cidades, de um modo geral, e as de grande porte em particular (complexas, conflagradas, travadas, desplanejadas, anacrônicas, colapsadas, injustas), encontram-se diante do enorme desafio da adequação acelerada às exigências do novo Século (que pode ser chamado de “Século da inclusão” e que requer uma reorientação e um “redesenho” guiados pelas necessidades dos pedestres, dos ciclistas e do transporte coletivo), sob pena de, não o fazendo, perderem para sempre a chance de virem a ser cidades sustentáveis e boas para viver.

As recentes manifestações de rua no Brasil, turbinadas pelo globalizado e desconcertante fenômeno das redes sociais, reivindicando transporte melhor e mais barato, saúde, educação e segurança “padrão Fifa”, nada mais são do que a expressão da perplexidade diante deste “mal-estar da urbanização brasileira” aliada ao clamor difuso porém intenso por mais decência e consequência na política nacional.

O caso do Recife, centro regional e cidade historicamente “inchada” (na expressão de Gilberto Freyre), é emblemático: em 1950 tinha cerca de 500 mil habitantes, em 1970 tinha 1 milhão e hoje beira os 1,5 milhão, centro de uma região metropolitana que chega perto de 4 milhões de habitantes, quase metade da população de Pernambuco. Apesar disso, a cidade-polo da quinta região metropolitana do Brasil, a primeira do Nordeste, teve seu último plano urbanístico digno deste nome elaborado em 1943 (quando a cidade era 1/3 do que é hoje). Trata-se do plano do paulista Ulhôa Cintra que traçou as radiais e perimetrais da cidade, plano ainda hoje não concluído.

Por tudo isso, o Recife encontra-se, em cheio e em meio ao vigoroso drama da urbanização das cidades brasileiras, diante da dupla e exacerbada acepção da palavra crise (enorme ameaça e grande oportunidade). A ameaça, por demais pressentida e contextualizada, é cair num abismo urbanístico de proporções épicas do qual não sairá jamais e, aí, teremos perdido a nossa cidade para sempre. Circe Monteiro, urbanista e professora da UFPE disse de forma contundente: “conheço poucas cidades que se autodestroem tão rapidamente quanto o Recife”. Kleber Mendonça Filho, diretor do festejado filme “O Som ao Redor” foi taxativo: “parece que o Recife, cidade tão cheia de personalidade e história, toma um caminho apressado para transformar-se num reduto de ‘não lugares’, numa paisagem desses ‘não-lugares’”. João Recena disse em conversa recente: “no Recife tem muito jovem de classe média que conhece Orlando (na Flórida) antes de conhecer os bairros de Santo Antônio e São José” (inclusive, com certeza, alguns dos que foram às ruas recentemente para pedir mudanças…). E se continuássemos, as citações e referências seriam centenas e milhares… Que cidade é essa que estamos legando aos nossos filhos e netos? Uma cidade que falta muito pouco para ser péssima e sem jeito como milhares e milhares ao redor do mundo.

No que diz respeito à oportunidade, a acepção benigna da crise, a história, a tradição e o conhecimento pesam, e muito. Hoje, o Recife, capital mais antiga do País, encontra-se, particularmente, diante da oportunidade de revigorar sua vocação histórica de cidade criativa e polo regional dinâmico, reencontrando o caminho do desenvolvimento sustentável no momento em que Pernambuco vive sua melhor fase econômica em pelo menos meio século.

Diante deste singelo mas apavorante balanço, não parecem restar dúvidas de que o grande desafio do Recife é, para usar a expressão da economista Tania Bacelar, re-in-ven-tar-se diante do novo e exigente contexto estadual. Para isso, a administração do prefeito Geraldo Julio assumiu, em sintonia com a urgência que a hora exige, o compromisso de realizar um planejamento de longo prazo capaz de guiar essa necessária e premente reinvenção, preparando a cidade para ser tudo aquilo que pode e precisa ser quando completar 500 anos em 2037.

Este plano Recife 500 Anos não pode deixar de ancorar-se nas dimensões econômica, social, ambiental e espacial, e traçar cenários, visões, metas e projetos para cada uma delas até 2037, de modo radicalmente participativo (e estreitamente sintonizado com as novas e urgentes demandas da sociedade que vai à rua). Participação a mais ampla e disseminada possível, tanto “off line” quanto “on line” (com o apoio do principal cluster tecnológico do País que é o Porto Digital cuja representação expandida manifesta-se no âmbito desta administração municipal pela Aries).

O poeta pernambucano Carlos Pena Filho disse do Recife, em verso tão genial quanto célebre (tão célebre que virou um quase lugar-comum poético): “metade roubada ao mar, metade à imaginação pois é do sonho dos homens que uma cidade se inventa”. Outro poeta, esse francês, Victor Hugo, disse também: “nada como o sonho para construir o futuro: utopia hoje, carne e osso amanhã”.

Todos os que temos consciência disso, estamos convocados a ajudar a mobilizar os sonhos dos recifenses para construir um futuro que restaure o bem querer do cidadão para com a cidade e coloque-a no patamar de uma das melhores para se viver no Brasil e, porque não ousar, uma das melhores para viver no mundo. Por incrível que pareça, isso ainda é possível embora o tempo seja, a cada dia que passa, mais exíguo: a areia da ampulheta da oportunidade está escorrendo rapidamente para o fundo e, infelizmente, depois de seca não dá para virar e começar a contagem de novo…

Tudo isso, da “porta” da prefeitura “pra fora”. Da “porta” da prefeitura “para dentro”, no âmbito da administração pública municipal, o drama também é imenso. Resultado de um longo processo de deterioração das capacidades de planejamento, execução e controle, a “maquina” pública municipal hoje se encontra, para dizer o mínimo, completamente defasada para dar conta das enormes exigências decorrentes das demandas da gestão urbana e dos serviços do Recife.

Nesse aspecto interno, o desafio é praticamente, também, reinventar a “máquina”, a partir da completa revisão do modelo de gestão que terá, inevitavelmente, que ser redesenhado e reimplantado em sintonia com as novas e complexas exigências de uma cidade que, ela própria, clama e luta, a seu modo, por reinvenção para não destruir-se irremediavelmente.
É justamente aí, neste tão indispensável quanto exigente esforço de reinvenção/redesenho do modelo de gestão municipal, que inscreve-se o papel do Instituto Recife de Gestão (cujo Conselho de Administração tive a honra de ser convidado a presidir pelo prefeito Geraldo Julio). Cabe ao IRG, por orientação do prefeito, as responsabilidades de: (1) funcionar como “fiel depositário” do modelo de gestão municipal; (2) ser a principal instância de desenvolvimento deste modelo; e (3) coordenar a capacitação dos gestores municipais tanto para operar o modelo reinventado quanto para gerir a boa e requerida prestação dos serviços públicos municipais.

Como podemos ver, os desafios são monumentais, alguns que até parecem impossíveis de virem a ser concretizados. Mas como disse Emile Zola, escritor francês: “dificuldades são como montanhas: só se aplainam quando avançamos sobre elas”. É preciso, portanto, avançar sobre as grandes dificuldades para aplainar os caminhos por onde transitarão os desafios redentores.

Atribui-se a São Francisco de Assis a frase: “comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível e, de repente, você estará fazendo o impossível”. No Recife, fazer o possível é atacar de frente o imenso passivo do desmantelo diário que vemos à exaustão pelas ruas da cidade a cada pequeno trajeto. Fazer o que é necessário é atacar os problemas com soluções consistentes de médio prazo como são os casos da Saúde, da Educação, da Segurança… Fazer o que parece impossível é atacar os problemas do longo prazo com uma abordagem séria, criativa, consequente e inédita (nas últimas décadas) de pensar de forma ordenada e sistemática o planejamento estratégico da cidade e da sua administração. O planejamento estratégico do Recife dos nossos filhos e netos… Esse é o valoroso trabalho que a gestão Geraldo Julio inaugura como compreensão da realidade, compromisso de campanha e responsabilidade ética para com o futuro.

Olhando todo esse quadro não podemos deixar de lembrar do poeta alemão Holderlin: “onde está o perigo, está também a salvação”.

Os perigos são muitíssimos e conhecidos de todos nós. A salvação está em muito trabalho cotidiano, no aproveitamento das grandes oportunidades ainda existentes e no traçado consequente e obstinado de uma estratégia que sirva de norte à atual e às próximas gestões rumo, a uma cidade minimamente decente.
Não temos mais tempo nem o direito de errar. Se perdermos essa que, tenho certeza, é a nossa última chance, teremos perdido a nossa cidade para sempre, nunca é demais repetir!
São, portanto, enormes, imensamente grandes, tanto o trabalho a ser feito quanto a responsabilidade de não errar o caminho a ser seguido, mas ambos não são menores do que a certeza de que é exatamente isso o que não pode deixar de ser feito.

A certeza é a mãe da vontade realizadora. Como disse Dão Silveira, empresário paraibano: “quem tem a vontade, já tem a metade”.

Com a vontade e a certeza do que precisa ser feito, a outra metade depende de termos a grandeza e a competência de não desperdiçar essa última chance da cidade do Recife.

Obrigado e vamos em frente. O futuro está lá nos esperando!

Francisco CunhaFrancisco Carneiro da Cunha é
presidente do Conselho de Administração
do Instituto Recife de Gestão
Recife, 25 de julho de 2013

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O futuro do Recife

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Recife

Por mais que seja chamada de Veneza brasileira, você já parou para refletir sobre estrutura do Recife do ponto de vista da malha hídrica? Já pensou que a cidade é interligada por canais, córregos, rios e bacias? De São José ao canal do Arruda, de Boa Viagem à bacia de Tejipió. Água, muita água. Na rotina, o quanto esta água é esquecida? Ora escondida por árvores, ora negada pela quantidade de sujeira que os próprios moradores jogam, ora ignorada pelo poder público. Seja qual for o motivo, a água é um elemento fundamental de toda a estrutura da cidade e só é lembrada em cartões postais com fotos aéreas de Santo Antônio e São José. Além disso, outras perguntas fundamentais: Como você imagina a cidade daqui a 25 anos? Qual é o planejamento existente que pode tornar possível esta previsão? Em pleno ano eleitoral os candidatos já começam a se articular, mas quais são os projetos para a cidade? A cada campanha são lançadas novas soluções para a educação, saúde e mobilidade, mas e quanto à estrutura física? Como o Recife estará quando fizer 500 anos em 2037? Foi pensando em respostas para essas perguntas absolutamente essenciais para o futuro da cidade que o recém-criado Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE) firmou uma parceria com os arquitetos de uma outra “Veneza”. Conhecida como “Veneza do Norte”, Amsterdam tem uma estrutura física que se assemelha à recifense e, assim como o Recife, já teve seus canais negados, a cidade “dava as costas” para a água de tal forma que pensaram até em transformar os rios em ruas para que os carros tivessem mais espaço. Mas a partir da década de 1960 a população exigiu mudança e o trabalho nestes espaços fez com que, em 2010, os canais chegassem a ser reconhecidos como Patrimônio Cultural da Humanidade.

A parceria começou há três anos, na vinda de arquitetos holandeses do Amsterdam Centre of Architecture (Arcam) para a preparação de exposição e workshop no âmbito das comemorações do ano do Brasil na Holanda. No ano seguinte, uma parceria entre a Universidade Federal de Pernambuco e o Arcam gerou o intercâmbio entre alunos da UFPE e arquitetos holandeses para criar um projeto que contemplasse a recém-anunciada Via Mangue.

A iniciativa, chamada Recife Exchange Amsterdam, ficou conhecida como rXa e resultou em uma exposição na capital holandesa. Depois de desenvolver esse trabalho, o grupo percebeu que era apenas “a ponta do iceberg”, como define o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco, Roberto Montezuma.  “Foi uma atitude dentro de uma parte da cidade mas que poderia ser aplicada em outras áreas. A partir desse insight, a gente resolveu trazer os holandeses para o Recife”, explica.  Em 2012, os holandeses participaram de um workshop que durou cinco dias, desta vez no Recife. A necessidade de pensar a cidade não apareceu apenas por 2012 ser ano eleitoral, mas pelo momento de intensa transformação de Pernambuco. Recife está entre três polos que estão sendo  bombardeados com investimentos: ao norte, Goiana com a chegada da Fiat e da Hemobrás; ao sul, Suape com o Complexo Industrial Portuário; e a oeste com a Cidade da Copa. O perigo desta nova configuração, segundo  Montezuma, está no esvaziamento desenfreado que pode causar ao Recife os mesmos danos que o centro da cidade sofreu quando Boa Viagem iniciou o atual surto de crescimento, em meados da década de 1960. Para Montezuma, estes bairros planejados que estão sendo anunciados precisam ser considerados com todo o cuidado. “Quando os investimentos foram para Boa Viagem, por exemplo, o centro da cidade (sobretudo os bairros de Santo Antônio e São José) começou o atual processo de esvaziamento. E esse crescimento não pensado e independente da estrutura já existente fez com que tivesse início a decadência do centro da cidade”. Para o grupo de arquitetos brasileiros e holandeses que estudou o problema, o mesmo pode acontecer com o Recife todo e, como o desenvolvimento é inevitável, é importante questionar como a cidade vai se preparar para esta nova lógica.

Na edição mais recente da série de debates “O Recife que precisamos”, iniciativa do Observatório do Recife e com o apoio editorial da Algomais, integrantes do Conselho de Arquitetura e Urbanismo apresentaram um trabalho realizado em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil, Fundação Joaquim Nabuco, Iphan, Prefeitura do Recife, Governo do Estado, Universidade Federal de Pernambuco e com o grupo holandês durante o Recife Exchange Amsterdam (rXa) que pode levar a uma nova forma de pensar a cidade. O arquiteto Roberto Montezuma disse, certa vez, que a melhor forma de criticar um projeto é presentando outro e colocou esta teoria em prática.

Nos três primeiros debates da série “O Recife que precisamos” foram  discutidos diferentes tópicos: como pensar a cidade a partir de exemplos que deram certo, com a arquiteta Circe Monteiro; cidades inteligentes, com Sílvio Meira; e o centro do Recife com o historiador e arquiteto José Luiz da Mota Menezes. Apesar de serem debates sobre temas distintos, ainda que complementares, o mote de que é preciso planejar a cidade para o futuro foi um lugar-comum nos encontros, assim como a ideia de que a falta de continuidade nas políticas públicas é um dos grandes entraves para colocar em prática o planejamento.

A importância do resultado das reuniões do rXa, como o arquiteto Francisco Cunha atentou na abertura do último encontro, está oferecendo alternativas de diretrizes de longo prazo para o planejamento urbano do Recife, já que os diagnósticos, segundo Cunha, feitos tanto pelas conversas do Observatório do Recife quanto de outros grupos, apontam a ausência completa de planejamento de longo prazo como “raiz da maioria dos males que nós sofremos hoje na cidade”, afirma.

Mudar é possível?

Pensar em uma mudança radical no Recife nos próximos 25 anos pode parecer improvável, mas a Colômbia mostra que é possível. Se o exemplo da recuperação dos rios feita por Amsterdã parece distante, pela condição econômica e social, o que dizer das cidades colombianas que estavam em uma situação bem mais complicada que a vivida pelo Recife hoje?

Estudioso da revolução urbana das cidades colombianas, o administrador de empresas Murilo Cavalcanti começou a pesquisar exemplos de redução dos problemas de segurança depois que a irmã foi vítima de um assalto que a deixou paraplégica. Preocupado com o Recife, encontrou em Bogotá um exemplo que poderia ser seguido.

A mudança começou, segundo Cavalcanti, em 1995 quando a população, já preocupada com a situação da capital e com a própria segurança – afinal, eram 80 homicídios por 100 mil habitantes – escolheu eleger como candidato o matemático e filósofo Antanas Mockus. A proposta foi, a partir do planejamento definido com vários arquitetos, resolver não só a violência, tida como o principal problema de Bogotá, mas realizar uma grande transformação social.

Como não há reeleição, a sequência de prefeitos após Mockus deu continuidade ao projeto inicial, mesmo sendo de partidos diferentes. O resultado foi a redução para 18 homicídios por 100 mil habitantes e uma cidade muito diferente da antiga. Além da melhora na violência, foi implantado um sistema chamado “TransMilenio”, copiado de Curitiba, mas que hoje é considerado o melhor transporte coletivo de ônibus do mundo.

A mudança foi, dentro do planejamento, na forma de pensar a cidade. Os melhores equipamentos públicos (escolas, parques, bibliotecas, centros comunitários) foram instalados nos lugares mais pobres. Com isso, uma série de problemas foram solucionados, como a educação e a violência. Mas o ex-prefeito Peñalosa disse, em entrevista à Folha de São Paulo recentemente, que ainda há muito para ser feito: “É uma cidade terrível, com problemas gravíssimos. Houve experimentos exitosos, mas ainda há muito a fazer”. Esse exemplo mostra que é possível mudar a partir de um planejamento sério para a cidade. Outra referência é Medellín, outra cidade colombiana que chegou a ter 381 homicídios a cada 100 mil habitantes em junho de 1991 e hoje tem 45 por 100 mil habitantes. Murilo Cavalcanti, que já participou de excursões a Bogotá e a Medellín para mostrar que é possível melhorar o Recife, afirma: “A mudança não chegou aqui porque nós ainda não chegamos no fundo do poço”.

árvore

Um conceito para o Recife

A partir da preocupação com o Recife e do desenvolvimento de um projeto para Boa Viagem durante o primeiro momento do rXa, o grupo decidiu dar continuidade ao projeto. Com a observação da estrutura existente e das características físicas da cidade, os integrantes do rXa criaram um conceito que pode nortear o Recife no pacto pelo planejamento. Para dar fôlego às ações, foi escolhida uma data como prazo final:  2037, quando  a capital pernambucana completará 500 anos.

Essa necessidade surgiu da importância, como ressaltou Montezuma, em pensar a cidade a longo prazo ao invés da contínua opção por soluções pontuais e/ou temporárias como tem sido a regra predominante das últimas décadas. Porém, para o arquiteto, mais do que planejar para o longo prazo, é preciso fazer isso de forma integrada, ou seja, pensando todos os fatores existentes na cidade, inclusive a dimensão ambiental, tanto como forma de preservar quanto tirar proveito da condição geográfica do território.

O grupo, ao se debruçar sobre o mapa da cidade, percebeu que, ainda que historicamente, boa parte da malha hídrica do Recife tenha sido alterada ou esteja em mau estado, a característica da cidade de ser úmida e interligada por filetes, rios e bacias não mudou. Essas águas, identificadas como a alma da cidade, formam uma imagem na qual o contorno tem o formato de árvore.

Tomando a estrutura do Recife como uma Árvore-Água, o grupo desenvolveu um conceito que envolve os elementos da árvore (folhas, frutos, flores, ramos, galhos, tronco e raízes) fazendo uma analogia com a estrutura da cidade (pessoas, córregos, canais, rios, bacias e praias e frentes d’água). Nesta lógica, as folhas, frutos e flores correspondem às pessoas e à sociedade civil organizada. Estes personagens seriam responsáveis pela articulação, pela vida existente e que será gerada em uma escala mais detalhada e espalhada por todo o território.

Depois existem os ramos, representados pelos canais, canaletas e córregos. São 63 canais maiores distribuídos nas três bacias do Recife, sendo 18 na do Beberibe, 21 na do Capibaribe e 24 na Bacia de Tejipió. A função natural destes canais é evitar inundações e complementar a função de distribuição e de equilíbrio no sistema.

Os rios Beberibe, Capibaribe e Tejipió são ilustrados como galhos, que dão às estruturas menores a sustentação necessária e que definem as três bacias da cidade. No galho do Capibaribe está o mais conhecido e significativo eixo da paisagem por sua localização. O tronco, por sua vez, é responsável por sustentar, conectar e guardar, é ilustrado pelas três bacias juntas: Beberibe, Capibaribe e Tejipió.

Por fim, as raízes dessa árvore seriam as praias e frentes d’água, onde está fincada a origem da cidade, construída da relação entre os rios e o mar. O esquema pensado no workshop ressalta não só a conexão entre as águas que interligam a cidade, mas o quanto as ocupações espaciais estão associadas a essas estruturas aquáticas. Aglomerações como a orla de Boa Viagem, a Avenida Agamenon Magalhães, a Beira-rio, o Bairro do Arruda são exemplos desse ponto de vista.

A partir deste levantamento, a proposta foi resgatar a força hídrica da cidade e voltar o olhar das pessoas para esta estrutura, que não vem sendo bem tratada. Interessados nessa mudança não faltam: seja o grupo dos moradores dessas áreas, a iniciativa privada ou o poder público, são várias as forças que podem participar dessa mudança, melhorando, também, a autoestima dos cidadãos e da cidade.

031O planejamento, a partir da visão da água como parte fundamental e integrada com a sociedade, poderia, segundo Montezuma, ter como fruto “um grande parque que corre a cidade inteira e que gera esse contorno de árvore d’água. Várias escalas de parque contornando todos esses filamentos. Trata-se de uma ideia capaz de reestruturar a cidade a partir dessa lógica integrada”.

Ainda para o arquiteto, a ideia não exige uma verba fora do orçamento por já existir, dentro do plano de saneamento do Recife, o propósito de melhorar a condição dessas águas. A atenção seria, por exemplo, para a reforma no entorno dos córregos: “Essa atitude pequena pode gerar uma grande qualidade de vida para a população. Na hora que a gente trata as bordas dos córregos e canais gera a possibilidade de lazer, de usar o espaço, de mobilidade, que não é só do carro, mas de querer andar a pé e de bicicleta, por exemplo”.

mapa

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Criar pocket parks, ou seja, “parques de bolso”. Pequenos parques que estariam espalhados pelos bairros de Boa Viagem, Pina, Imbiribeira e Afogados em pequenas áreas verdes que dialogassem com os manguezais.

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Avenidas e Boulevards: Criar corredores verdes nas seguintes ruas que ligam a praia ao manguezal: Tomé Gibson, Prof Wanderley Filho, Arthur Muniz, Henrique Capitulino, França Pereira e Jornalista Adeth Leite. Nestas vias, a prioridade seria dos pedestres e ciclistas. A Avenida Boa Viagem seria também um corredor verde, com os pocket parks.

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Para Conjunto Habitacional Parque do Bode, cuja ocupação vai até a margem do rio, sem espaço aberto, o plano de ação proposto foi transformar a borda em um parque linear arborizado com áreas de lazer. O meio das quadras seria revitalizado com a retirada de casas que não tivessem ligação com a rua e com a construção de habitacionais realocando a população.

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O Aeroclube é uma área do Governo do estado que vai ser desativada. A partir da Via Mangue foi pensada uma operação urbana com um parque, que seria construido pela iniciativa privada. Como benefício, as empresas teriam o direito a construir algumas edificações . A pista de pouso seria preservada como espaço de lazer. As palafitas seriam resgatadas com áreas verdes.

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No pequeno território de terra que se pode construir na região do manguezal seria criado o Parque Ecológico dos Manguezais, uma grande área verde multiuso. Com espaço para praticar esportes, realizar eventos etc.  além de uma passarela em vários níveis foi prevista para que, durante a subida, as pessoas tivessem acesso a equipamentos como biblioteca, centro de educação ambiental, centro comunitário e restaurante.

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Para esta área, ocupada atualmente pela Galeria Centro Sul, foi pensada a estação intermodal que abrigaria recursos como bicicleta, monotrilho ou BRT, teleférico e boat bus. As lojas também participariam da estação,como forma de dar vida ao lugar.

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Aproveitando a proximidade com a Praça de Afogados, com a estação de metrô e com galpões que ficam na beira do rio foi proposta uma ligação entre a praça, a estação de metrô e a estação de Barco Bus. A estação teria lojas e mercados, e, na saída, uma praça e um parque. O resgate da água e a criação de uma área habitacional aberta de classe média resgatariam o valor da área.

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No Conjunto Habitacional Parque Sul foi prevista a remoção da favela para criar um novo conjunto habitacional de prédios e gerar espaços verdes de lazer.

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Próximo a Faculdade Universo existem galpões e fábricas desativadas e a população do entorno é de baixa renda. Aproveitando a distância de 1km entre as estações Antônio Falcão e a Estação de Afogados foi proposta uma nova estação de metrô. Este novo ponto seria um espaço de integração entre a área da Imbiribeira e dos manguezais.  Aproveitando a faculdade foi planejada uma grande boulevard com prédios empresariais, e, perto do rio, habitações de classe média e habitações populares.

Os bairros-parques como uma solução

mapa

Na nova organização mundial que estamos vivenciando no dia a dia, está cada vez mais comum o compartilhamento de expertises e de experiências. Hoje, principalmente com a Web 2.0, a conexão entre os mais diferentes povos e culturas torna as trocas possíveis, independentemente da distância. Um exemplo desse processo de troca foi a experiência do Recife Exchange Amsterdam (rXa) em 2011.

A partir do anúncio da construção da Via Mangue os professores da Universidade Federal de Pernambuco Luiz Vieira, Roberto Montezuma e Geraldo Marinho desafiaram os alunos a criar um projeto integrado que trabalhasse essa nova área da cidade. A ideia era não trabalhar apenas a mobilidade, o ambiente ou a habitação, mas propor uma solução que envolvesse todos os aspectos da região.

O grupo, formado pelos professores orientadores, alunos, arquitetos convidados e profissionais de Amsterdã fez video conferências, debates e apresentações até chegar no resultado final. Partindo de uma enorme área de manguezal que toca os bairros Boa Viagem, Pina, Imbiribeira e Afogados surgiu a ideia de criar um projeto que envolvesse, além da região da Via Mangue, a requalificação da Imbiribeira e de Afogados.

Entre os objetivos do projeto estava encontrar soluções para a mobilidade de baixa qualidade, os contrastes sociais e econômicos, o problema da Via Mangue como uma barreira, a visão de que a cidade vira as costas para a água e a falta de espaços públicos. A partir desta compreensão, os participantes estabeleceram focos de ação em torno do manguezal, principalmente em áreas por onde a Via Mangue vai passar.

Para o trabalho, o grupo escolheu implantar a ideia de bairros parques integrados ao manguezal, ou seja, distribuir o verde pelos bairros a partir da criação de novos lugares públicos, espaços de convivência e de interação com a área verde do mangue. Nestes bairros as águas que margeiam o manguezal são tratadas como o “fundo” quando deveriam ser tratadas como a “frente”. Sendo assim, houve a preocupação de interagir com a água e utilizá-la a favor da população.

E, para solucionar o problema de fluxo na região, foi criado um sistema intermodal de mobilidade que utiliza metrô, monotrilho, bicicleta, transporte fluvial e teleférico. Foram propostas dez áreas  de intervenção: A orla (Boa Viagem e Pina) e as ruas que ligam o mangue à orla; os pocket parks que estariam pelos quatro bairros; a comunidade do Bode; Conjunto Habitacional Parque Sul, espaço da marinha dentro do manguezal; Parque aeroclube; Galeria Sul; Estação de metrô de Afogados; e o espaço próximo à Faculdade Universo;

A partir de Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), praças, pocket parks e espaços vazios perto dos rios, a proposta inicial dos bairros parques era de “explodir” a região em espaços verdes, ou seja, criar espaços arborizados na orla, na margem dos mangues e nas ruas que ligam o mangue à orla (Tomé Gibson, Prof. Wanderley Filho, Arthur Muniz, Henrique Capitulino, França Pereira e Jornalista Adeth Leite). Segundo o arquiteto Luiz Vieira, a importância desta explosão de espaços verdes está na melhora tanto na qualidade de vida da população quanto no resgate do manguezal, além de melhorar o fluxo com a criação de ciclovias.

Com o projeto foram identificadas oportunidades de requalificação urbana que podem ser, no futuro, objetos de Parcerias Público Privadas (PPP). Ainda que a proposta não venha a ser colocada em prática na totalidade, o grupo mostrou que com o planejamento é possível mudar a realidade e que ainda existe uma saída para resolver os problemas que hoje afligem os moradores do Recife. A partir desta forma de pensar os bairros e a integração entre eles, o projeto pode ser aplicado ao resto da cidade de forma a criar um espaço mais agradável, verde e com mais interação entre as pessoas.

Fonte: Revista Algomais

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Workshop Arquitetura não solicitada continua

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Projeto GV

Vinte e quatro horas para encontrar soluções de mobilidade para o Recife, descobrir uma maneira viável de ocupar prédios vazios e espalhar arte em meio ao concreto da cidade. O desafio foi lançado para 12 profissionais no workshop Arquitetura não solicitada, da exposição homômina que chegou à cidade nesta semana. O tempo durante o qual você se aborreceu em um engarrafamento, deparou-se com a ocupação irregular e a construção desenfreada de espigões ou simplesmente pensou como seria se deslocar de bicicleta de casa para o trabalho foi usado por eles para elaborar projetos que transformariam a Avenida Guararapes em um corredor exclusivo para pedestres e reincorporariam os fortes do Brum e das Cinco Pontas ao espaço turístico da cidade, por exemplo.
A exemplo dos nove projetos de arquitetura apresentados durante a exposição, nos quais as iniciativas individuais de cada profissional ou grupo mudaram a realidade de cidades na Índia, Holanda e Espanha, os arquitetos pernambucanos criaram estratégias para “pensar um novo Recife”. Durante um dia, eles tiveram que se debruçar sobre um espaço público, estudar a função social da área e planejar como agregar a ela valor urbanístico, oferecendo alternativas aos problemas encontrados atualmente.

Apresentação de um dos projetos desenvolvidos no workshop Arquitetura não solicitada:

Coletivo GV

Geosistemas Engenharia e Planejamento & Vaastu Arquitetura e Urbanismo

Proposta para a Avenida Guararapes

A proposta partiu da idéia de melhorar a mobilidade do centro expandido do Recife, considerando o estudo existente para implantação de BRT (Bus Rapid Transit) no corredor de trânsito Leste-Oeste, indo do Derby até o Bairro do Recife, passando pelas avenidas Conde da Boa Vista e Guararapes.

No entanto, com esse corredor linear, apesar da melhoria no tempo de deslocamento que pode ser criada, ainda existiria a dependência de outros meios de transporte nos bairros de Santo Antônio e São José, uma vez que o BRT ficaria distante da maior parte dos pontos de fluxo nesses bairros. O trânsito nessas localidades, portanto, permaneceria caótico, com grande volume de carros circulando em vias de comércio junto com os pedestres, com espaços vazios sendo utilizados exclusivamente como estacionamento e, por fim, mantendo a situação atual de priorização dos automóveis nos espaços públicos do centro.

Nós entendemos que a questão da mobilidade não é um fim em si mesma, mas um meio para que as pessoas possam parar de perder tempo em seus deslocamentos e possam, de fato, exercer suas atividades e vivenciar a cidade.

Nós propomos, então, bifurcar o corredor Leste-Oeste, criando uma linha circular entre os bairros de Santo Antônio e São José, que se conectaria com a avenida Sul e com outra linha que iria fazer o percurso no Bairro do Recife. Com essa linha circular, é possível concentrar todo o transporte público na linha do BRT, pois as distâncias entre a linha e as outras localidades do centro seriam curtas. Outras ruas seriam destinadas apenas ao uso de automóveis particulares, garantindo a conexão entre os bairros mas liberando a maioria das ruas para o uso dos pedestres. Essas vias seriam pedestrianizadas durante os horários comerciais, permitindo trânsito de veículos apenas à noite, para abastecimento das lojas, por exemplo.

Com a melhoria da mobilidade e a priorização ao trânsito de pedestres, é possível reclamar os espaços públicos de volta para a comunidade. Liberando a extensa área antes ocupada pela grande quantidade de linhas de ônibus, Projeto2 largos, praças e até mesmo avenidas podem se transformar em áreas  multiuso, onde a população pode exercer atividades cívicas, sejam elas  programadas ou espontâneas, e o poder público pode planejar eventos  de grande porte – como já acontece no carnaval – sem a necessidade da anual mudança de trânsito e sem paralisar o fluxo de pessoas na cidade.

O Marco Zero está claramente sub-dimensionado para ser o exclusivo espaço cívico da cidade. É preciso criar uma nova centralidade, multiplicar as possibilidades de eventos e gerar mais usos e diversidade. A Avenida Guararapes, cartão postal do Recife entre as décadas de 1940 e 1970, serve perfeitamente para esse fim, por sua amplitude, suas galerias com pés-direitos duplos e por já ser usada pela população ao abrigar comércio informal, passeatas, manifestações e até mesmo exposições como o SPA das artes.

Assim, nós propomos pedestrianizar a Avenida Guararapes e transformá-la num espaço público, aberto para o Recife.

EQUIPE:

Larissa Menezes – Arquiteta e Urbanista | Geossistemas | Recife
Tiago Luna – Arquiteto e Urbanista | Geossistemas | Recife
Adryana Rozendo – Arquiteta e Urbanista | VAASTU | Recife
PC Silva – Arquiteta e Urbanista | VAASTU | Recife

Arquivo em PDF: Coletivo GV

Fonte: Fundaj e equipe do projeto.

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II Recife que Precisamos: Cidades Inteligentes

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“O Recife é muito pequeno para ter opinião sobre si mesmo”

Paraibano de Taperoá, Silvio Meira deixou sua cidade natal logo cedo e, desde menino, acostumou-se a ver a população de Taperoá indo embora de sua terra, em busca de novas oportunidades em cidades mais promissoras. Ao longo de mais de cinco décadas de vida, mudou-se diversas vezes e vivenciou a atmosfera e a rotina de grandes metrópoles, como Londres e São Paulo.

Fundador e batuqueiro do grupo  de maracatu ‘A Cabra Alada’, Silvio Meira costuma ir ao trabalho de bicicleta e, na falta de ciclovias adequadas no Recife, arranjou um motivo para comemorar quando o trânsito está engarrafado: “nós (ciclistas), circulamos mais facilmente e, com os carros parados, diminuem as chances de sermos atropelados”.

Brincadeiras à parte, segundo ele, já passou da hora de o Recife definir a própria vocação: “a cidade precisa (voltar a) ser um lugar de vida e de encontro, e não de passagem”, afirma. Ele também defende que, numa época de competição global, não  podemos perder tempo com questões discutindo sobre a inversão do trânsito numa determinada rua ou avenida. “É preciso redesenhar os processos, para tornar a cidade mais competitiva. Não estamos mais na época do imaginário ingênuo sobre a cidade. Estamos no tempo do imaginário criado, objetivo. Há um design por trás disso”, completa.

Um dos importantes formadores de opinião da atualidade, Silvio Meira poderia viver em qualquer lugar do mundo. Escolheu o Recife. “Eu vou morar em recife no Recife até morrer. Se não fosse aqui, diz, só viveria em Lisboa”. Por quê? Nem ele mesmo sabe explicar. “Deve ser coisa de vidas passadas. Se não fosse Lisboa eu não moraria em lugar nenhum. Moraria em Taperoá”.

Algomais  |  Como a tecnologia pode ajudar a resolver os atuais problemas urbanos do Recife?

Silvio Meira  | Já existem, em quantidade e qualidade, tecnologias suficientes para tornar as cidades mais inteligentes, flexíveis e ágeis; assim como inteligência social e colaborativa, para que os fluxos de informação guiem as melhores soluções no curto, médio e longo prazos. A cidadania 2.0 funciona quando as estruturas e dinâmicas estão sincronizadas o suficiente no tempo e no espaço – para todos e com todos. Não é a tecnologia que resolve o problema. A questão é como ela é usada. É preciso ter cuidado para não informatizar o caos.

AM | E o que é informatizar o caos?

SM | Muitas vezes, as pessoas acham que informatizar os processos é a solução. E não é. Pode até ajudar, mas não é só isso. É preciso repensar os modelos vigentes porque nós não vamos resolver problemas antigos com soluções antigas. Vou dar um exemplo de informatização do caos em estado puro: no Recife, é comum se ver obras já concluídas, com o prédio funcionando sem o Habite-se, porque a burocracia que envolve sua liberação é lenta. Ao mesmo tempo, a mesma Prefeitura que não deu o Habite-se, cobra IPTU. Dentro da mesma Prefeitura, não há comunicação entre os cadastros do Habite-se e do IPTU. O problema do agente público é uma combinação de gastar imposto para prestar serviço, com criar condições para coletar mais imposto, para prestar mais serviço. Eles precisam entender que não é executando a economia que eles participam dela necessariamente.

AM | O que é o conceito de Smart City? O Recife tem chance de se tornar uma ‘cidade inteligente’?

SM  | O conceito de ‘Smart City’ é bem amplo, aberto, solto. Cabe muita coisa dentro dele. Essencialmente, propõe um resedenho da vida urbana, em toda a sua organicidade, com baixo impacto na vida das pessoas. Ele compreende a colaboração da população no processo de uso e de compreensão da cidade no seu dia a dia. No Brasil, nenhuma cidade é smart. Aliás, nenhuma o é, em toda a América Latina. A América Latina é a estação da beleza e do caos. Demora, mas a gente chega lá. Mas, antes disso, precisamos pensar na atratividade da cidade. Isso é ponto fundamental para as empresas que pesquisam o Recife como possível destino para a instalação de grandes companhias aqui.

AM  |  E no restante do mundo, onde estão as cidades inteligentes?

SM | A Suécia é toda smart. A Dinamarca, idem. Lá, por sinal, a questão é inversa: em Kopenhagen, tem engarrafamento de bicicletas e o governo local está tentando estimular a população para que volte a usar o carro, para tentar equilibrar esse o tráfego. Outro exemplo é Londres, que melhorou magnificamente nos últimos 30 anos, em todos os sentidos, graças a um sistema muito simples: planejamento, foco em um objetivo, meta, execução, cobrança. Isso é fácil de fazer. Na vida de uma cidade como Londres, que tem 2.500 anos de existência, 30 anos não são nada. Foi uma mudança muito rápida. Enquanto isso, Recife está tão no passado, que continua na ilusão de que pode ter um porto no centro de uma cidade de 15 milhões de habitantes.

AM  | Qual o maior problema do Recife hoje?

SM | A falta de continuidade das políticas públicas que pensam a cidade. A última pesquisa de origem e destino (POD) feita no Recife é da década de 1970.  Em 2001, trabalhavam 500 pessoas em Suape. Hoje, trabalham 60 mil. E essas pessoas não estão lá. Elas vão de algum lugar para lá. O Recife pertence a uma classe de cidades que já foram pujantes, relevantes em termos de capital, trabalho e poder econômico, mas que, nos últimos 100 anos, deixaram de ser tudo isso. O Recife tornou-se irrelevante no cenário de poder nacional. Do ponto de vista do tempo social, 100 anos é muito pouco. Agora, temos uma retomada dessa relevância econômica do Recife, com uma nova definição de centralidades, com Suape de um lado e Goiana do outro, absorvendo um pedaço de João Pessoa. E ainda tem São Lourenço da Mata. Inclusive – é bom que se diga – nos próximos anos, os dois prefeitos mais poderosos de Pernambuco provavelmente serão o de Ipojuca e o de Goiana. E, aí, os prefeitos do Recife e de Olinda vão ter que se juntar para ir tomar cerveja no Carnaval. Recife é uma cidade sem território, com 200 quilômetros quadrados, está imprensada no meio disso aí. Aqui não há espaço para a instalação de estruturas fabris de objetos concretos. Recife tem vocação para a instalação de fábricas virtuais, e isso está justamente na produção de softwares, de cinema, de animação e na indústria da educação, da formação.

AM | Há saídas viáveis?

SM | A cidade corre o risco de se dispersar e perder a alma, se tornando alguma coisa sem identidade: mais uma cidade no meio desse espaço que será ocupado por Suape e Goiana. O Recife, hoje, tem a necessidade de criar um significado para si. Do contrário, vamos virar cidade-dormitório de todos os investimentos que estão chegando, como aconteceu com Olinda. Aí sim, estaremos verdadeiramente perdidos. Eu acho que a saída para o Recife é ser ‘a cidade do conhecimento’, de acordo com a nossa vocação histórica, como maior e melhor centro de formação do Nordeste desde 1537. Mas a cidade não tem a conta, por exemplo, de quanto um bolsista de doutorado gasta na cidade, nem faz marketing de si próprio nesse sentido. Recife é uma cidade de inovação e de cultura, mas todos os agentes culturais de expressão artística e relevância nacional saem daqui. Isso significa que não dá para viver disso a partir daqui. Note: não é viver disso aqui, mas a partir daqui. Na Bahia, a indústria do Axé vive, se alimenta e gera negócios e dinheiro a partir de Salvador. Aqui, isso não acontece.

AM |Qual o nosso futuro?

SM | O Recife precisa olhar para o futuro, se definir e passar a ser uma parte menor de um todo muito maior e mais organizado, que seria a própria Região Metropolitana. Não deveríamos ter a inteligência de transformar isso aqui numa região efetivamente metropolitana, com um governo metropolitano, com o Recife tendo uma subprefeitura? Às vezes, para dar um sentido melhor ao todo, você tem que se decidir a ser uma parte menor desse todo. É uma escolha.

AM | Fala-se muito em mobilidade, como se este fosse um problema exclusivo de quem tem carro.

SM | Mobilidade é, principalmente, para quem não tem carro. Nunca, no planeta, vai haver mais gente com carro do que sem carro. Até porque, se isso acontecesse, o mundo entraria em colapso. A política urbana brasileira tem sido – via de regra – rasa, em todas as cidades. Sem falar que ela é esporádica e contraproducente porque, o tempo todo, a gente vem tentando resolver problemas pequenos no curto prazo. Isso é o segredo para não ir para lugar nenhum. O cidadão do Recife tem, hoje, o tempo médio de deslocamento de casa para o trabalho, usando o transporte público, maior do que o de São Paulo (!). Outra coisa: ônibus com ar-condicionado numa cidade como o Recife é um sinal de cidade inteligente. E cadê? Foi só tirarem as kombis e acabaram-se os ônibus com ar-condicionado.

AM | Então, estamos em um caminho sem volta?

SM | Deveríamos fazer como em Xangai (China), que reduziu a quantidade de placas de carro na cidade. Lá e em Singapura, limita-se o uso de veículos em algumas áreas das cidades e, quem quiser andar na cidade, paga pedágio. Aqui, essa possibilidade não é nem considerada. Precisamos repensar como fazemos as coisas e como usamos o espaço público. Redesenhar a cidade pressupõe, necessariamente, envolver o Recife em uma rede, mas as políticas públicas não dão conta disso. A impressão que se tem é que o Recife é muito pequeno para ter opinião sobre si mesmo. E mais: como já disse o produtor cultural Roger de Renor, ‘o Recife é a maior cidade pequena do mundo’: pensa pequeno, o que leva a um ‘apequenamento’ dos seus líderes, frente aos problemas que deveriam tratar. Na minha opinião, em vez de estar discutindo a inversão do trânsito da avenida Domingos Ferreira, deveríamos estar decidindo se vamos, ou não, terraplanar tudo, daqui para Camaragibe. Isso sim é um debate do tamanho do Recife. Como é que a gente quer que esteja a nossa cidade no ano 5.000? Isso sim é uma discussão para mobilizar ‘a maior cidade pequena do mundo’.

AM | E como fica a classe média nesse contexto?

SM | Antes de melhorar o sistema de ônibus, é preciso inviabilizar o uso do carro pela classe média para ir para o trabalho. Se isso for feito, a pressão vai ser tão grande que haverá os ônibus. Uma coisa leva a outra. O problema é que, tipicamente, são os necessitados que não têm voz, porque fazem parte de currais eleitorais estabelecidos, cujos representantes corroboram com o modelo vigente.

AM |  Você acha que conseguiremos ampliar a discussão, indo além de questões com o buraco na rua e a ‘mobilidade’ para quem tem carro?

SM | Se a gente conseguir entender que, para ganhar no todo, teremos que perder e nos adaptar individualmente, sim. Essa mudança tem um custo e, normalmente, não existe benefício sem custo. Todo mundo está a fim de resolver o problema da cidade, desde que isso não tenha nenhum impacto na sua vida pessoal. É muito difícil você conseguir resolver um problema dentro das mesmas linhas de pensamento que o originaram. Não precisamos salvar o planeta coisa nenhuma. Precisamos salvar a humanidade. E o Recife? Recife quer ser salvo?

Fonte: Revista Algo Mais

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VERTICALIZAÇÃO: onde e como?

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Foto Leo Caldas/ Titular
Foto Leo Caldas/ Titular

Comentário acerca do Projeto “Novo Recife”, para o Cais José Estelita-Recife

É muito importante que compreendamos que a Verticalização não é um mal em si. O que se deve considerar e questionar são a maneira (não planejada) e o local (não adequado) onde muitos costumam verticalizar.

Existem muitas alternativas projetuais, arquitetônicas e urbanas, para se construir verticalmente. É possível sim considerarmos, ao mesmo tempo, as infra-estruturas urbanas e o contexto cultural e edificado, propondo elementos ou conjuntos verticais em meio a sítios consolidados.

O que ocorre aqui é que os grandes empreendedores apenas contratam especialistas em “objetos arquitetônicos”, cujo foco do trabalho é o edifício, o privado… ficando o espaço público como pano de fundo e álibi político.

Porque não, desde o início, juntar os saberes, agregar competências e propor intervenções verdadeiramente integradas e bem sucedidas? Ainda não perceberam que fazer tudo “mais rápido” e entre quatro paredes só retarda e dificulta os negócios??? É uma grande deseconomia esperar a manifestação popular ou do Ministério Público para só então escutar os pareceres dos “experts” do Mercado e das Universidades.

Empreendedores: exijam do poder público planos preliminares que respaldem suas propostas! Buscar apenas as brechas nas nossas incompletas leis urbanas não os deixa imunes a protestos, confusões ou embargos. É muito mais rápido e inteligente demorar um pouco mais planejando melhor do que perder tempo com as inúmeras audiências e protestos públicos. INVISTAM EM PESQUISAS PARA SUBSIDIAR O DESENVOLVIMENTO DOS PROJETOS. Contratem preliminarmente os profissionais certos!!!

Mesmo considerando a proposta de Plano de Massa prevista pelo Projeto Recife-Olinda, fica bastante clara a carência de uma redistribuição dos investimentos imobiliários nesta parte do Território Central. A famosa vista aérea em 3D do Projeto supracitado mostra claramente um desequilíbrio entre a massa construída voltada para o lado do cais e aquela situada entre a Rua imperial e o Rio Capibaribe (também território extremamente potencial). Mesmo os não especialistas conseguem perceber que o modelo de urbanismo proposto no Projeto Recife-Olinda, em que pese a feliz iniciativa de se pensar conjuntamente uma “fatia da cidade”, não acompanha os paradigmas construtivos contemporâneos, nem os da redistribuição do uso e ocupação do solo, e muito menos as novas demandas da mobilidade sustentável.

Senhor Prefeito (atual ou vindouro): Precisamos de um Plano Estratégico e Exeqüível de Cidade, de um Plano para a Área Central, de PLANOS LOCAIS SIMPLES E EFICAZES. Não se pode permitir que a iniciativa privada, sozinha, desenhe a Cidade que queremos. Ela deve ser sempre parceira e bem-vinda, mas as parcerias público-privadas de sucesso devem estar respaldadas, inexoravelmente, por uma GESTÃO MUNICIPAL que mantenha as “rédeas” do planejamento e do controle, não apenas as da liberação econômica e imobiliária.

Nada contra os lucros das Grandes Construtoras. Tudo contra um modelo de construção eminentemente privado e imediatista. Tudo a favor do bom planejamento urbano-arquitetônico que permita, ao mesmo tempo, o lucro da iniciativa privada e a qualidade de vida da população como um todo.

Clarissa Duarte Câmara
Arquiteta e Urbanista
Mestre em Planejamento Urbano (Univ. Paris 1-Sorbonne)
Profa. da Universidade Católica de Pernambuco

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Um retrato da juventude recifense

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Conceitualmente, os jovens são sujeitos de direito e, para eles, não existe passado e futuro. Existe agora. Só o ‘hoje’ interessa. A identidade juvenil é múltipla e tem muitas interfaces: são muitas as juventudes dentro de uma só.

No Brasil, segundo o IBGE, os jovens de 15 a 29 anos representam cerca de um quarto da população do País. Em números absolutos, são mais de 50 milhões de brasileiros e brasileiras que vivenciam fortemente os desafios do desenvolvimento da sociedade: a desigualdade social, o acesso aos direitos básicos, o culto exacerbado ao consumo, os impactos ambientas e a falta de oportunidades para o exercício dos seus direitos cidadãos. No Recife, segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2000, essa proporção é ainda maior em relação à média nacional. Aqui, a população de jovens representa uma média de 30% (ou 1/3) do total de moradores da capital.

Na opinião de quem atua junto às juventudes no Recife, um entrave importante a ser registrado é a ausência de interesse publico, de pesquisas e de políticas públicas estruturadoras para os jovens do Brasil, que são vistos, em muitos momentos, como ‘problema’ pela sociedade.

Em Pernambuco, essa realidade é reforçada pela atuação do Estado voltada apenas para a parcela dos jovens que se encontram em situação de risco, por meio da realização de programas pontuais. Para as lideranças do setor, a tentativa de estabelecer e gerir uma política estadual voltada para a juventude é feita de maneira desarticulada e sem levar em conta o histórico de atuação do movimento da sociedade civil em prol da juventude no Estado. Para os especialistas, essa descontinuidade de enfoque, de abordagem e de prioridades representa uma lacuna.

No Recife, as condições socioeconômicas da maioria das famílias ‘empurram’ a juventude para o mundo do trabalho cada vez mais cedo. E, para esses jovens, trabalhar parece ser uma necessidade muito urgente. Mas isso nem sempre acontece de maneira formalizada ou estruturada, levando em conta uma estratégia de formação e de carreira para quem está na faixa dos 15 aos 29 anos de idade.

O valor do trabalho – De acordo com especialistas e lideranças que atuam diretamente com as juventudes no Recife, o trabalho ocupa um lugar importante na vida desses jovens, que anseiam por poder contribuir com o orçamento familiar, comprar as próprias coisas, ter independência. A propósito, essas lideranças também constatam que as condições materiais dos jovens configuram um entrave para a sua adesão a iniciativas de capacitação, educação e formação profissional. Afinal, como garantir uma frequência mínima nas aulas se não se tem, por exemplo, o dinheiro para a passagem de ônibus?

Nos últimos anos, o número de jovens com emprego formal tem aumentado no Recife: passou de 65,2 mil em 2007 para 78,4 mil em 2009. Em termos da população nessa faixa etária isso corresponde a 25,35% em 2007, 28,04% em 2008 e 31,12% em 2009 – o que significa que apenas um entre cada três jovens tem trabalho com carteira assinada. Apesar do recente crescimento registrado, vale ressaltar que esse percentual ainda é muito baixo diante da demanda. Em tempo: o Recife está entre as capitais que pagam os piores salários para os jovens de 16 a 24 anos no País, com um valor médio de R$ 720,22 (base dezembro de 2009). Em Brasília, o salário para a mesma faixa etária é de R$ 1,15 mil e, em São Paulo, R$ 992,00.

Além disso, a opção pelo estudo e por uma formação de nível superior parece cada vez mais distante e dissociada da realidade de alguns jovens, que não se reconhecem como capazes de disputar uma vaga em uma universidade, por exemplo. Existe, também aí, uma questão de auto-estima que é cultural: muitas vezes, o jovem de baixa renda não se acha suficientemente ‘inteligente’ para passar no Vestibular para uma universidade pública, por exemplo.

Para esse jovem, é como se estudar após a conclusão do Ensino Médio (ou, não raro, bem antes disso) não fosse viável para ele. Também é cultural a concepção tradicional de trabalho. Em geral, as famílias desses meninos e meninas valorizam aquilo que é fixo, regular e com vínculos formais como um trabalho ‘sério’. E os jovens crescem tendo esse padrão como referência para quem quer ‘ser alguém na vida’.

Um exemplo que ajuda a ilustrar essa questão é a situação de jovens que trabalham em projetos culturais em comunidades no Recife. Existe uma lacuna entre o que eles de fato gostariam de desempenhar profissionalmente e os valores e expectativas de suas famílias. Isso porque, em geral, a maioria não enxerga o trabalho artístico como meio de vida e os jovens, por sua vez, acabam abandonando aquilo que realmente desejam fazer por falta de condições para se manter na atividade e pela pressão para ingressar no mercado de trabalho. Trata-se de uma questão cultural, ditada pelo senso comum e reforçada pela ausência de políticas públicas para atrair, estimular e manter esses jovens nesse tipo de atividade.

Sem tempo para estudar – A prioridade para a inserção no mercado de trabalho é inversamente proporcional ao espaço para o estudo na rotina dessa juventude, que acaba sendo comprometido. Estudar é criar hábitos e é preciso ter tempo para fazê-lo.

De acordo com um professor da rede Estadual de Ensino ouvido pelo Observatório do Recife, cerca de um terço da população juvenil do Estado não têm acesso ao ensino médio em escola pública por falta de vagas. Ao mesmo tempo, a maioria dos estudantes que conseguem uma vaga considera a escola ruim e os índices de abandono e reprovação são elevados. As queixas mais freqüentes apontam professores que não dão aula (ou acham que para estudante de escola pública não carece empenhar-se com maior seriedade) e o aspecto degradado e pouco atrativo do espaço físico das escolas, além da pouca ou nenhuma aplicabilidade dos conteúdos do currículo à realidade desses jovens.

A dificuldade de acesso à educação afasta os jovens das salas de aula e os aproxima de situações transversais comuns à discussão sobre a situação da juventude no Recife, como a gravidez precoce (com repercussão direta no sistema público de saúde e na descontinuidade da vida escolar das adolescentes) e o tráfico e o consumo de drogas, diretamente ligados à violência urbana, que continua vitimando fatalmente os jovens de 16 a 24 anos, em sua maioria, homens, negros e com poucos anos de estudo, sem acesso a níveis superiores de educação e a uma saúde pública de qualidade, com atenção especializada a esta faixa etária.

É importante registrar que os dados sobre as mortes desses jovens não são tabulados qualitativamente, de modo a traçar uma relação entre esses eventos violentos e o contexto social em que ocorreram, misturando os dados a outras estatísticas de crimes ocorridos na cidade.

A propósito, a taxa de homicídio juvenil para homens de 16 a 24 anos de idade é um dos mais significativos indicadores de violência, porque é nessa faixa etária e gênero que se concentram os crimes. Na mais recente comparação dos índices de homicídio juvenil masculino, feita com dados de 2008, o Recife aparece em um desconfortável penúltimo lugar entre as capitais brasileiras, ficando uma posição acima da última colocada no ranking de capitais, Maceió (AL).

Colaboraram:

Especialistas membros do GT de Juventude do Observatório do Recife.

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Segurança pública: combate à criminalidade ou qualidade de vida?

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Ao contrário do que prega a lógica do senso comum, o conceito de segurança pública não se resume à política de combate à criminalidade nem à atividade policial. Ou, pelo menos teoricamente, não deveria se restringir a isso. Por definição, em um regime democrático, a segurança pública deve ser assegurada pelo Estado, garantindo a proteção dos direitos individuais dos cidadãos e o pleno exercício da cidadania pela população. A Segurança – escrita assim, com a inicial maiúscula – deve oferecer um ambiente favorável para que o cidadão possa ir e vir, trabalhar e se divertir, protegendo-o dos riscos do dia a dia. Assim, a rigor, ‘segurança’ não se contrapõe a ‘liberdade’, mas é a orientação para o seu exercício.

Na maioria dos estados brasileiros existe grande dificuldade de reunir e acessar os índices sobre segurança. Uma publicação do Fórum Brasileiro de Segurança, lançada em 2008, aponta que o Brasil não dispõe de um canal efetivo de disseminação de informações que consiga, de fato, fazer um retrato das polícias e sua ativação dentro das políticas de segurança pública. Ao mesmo tempo, a população convive com a crescente falta de confiança nessas políticas, por parte daqueles a quem elas deveriam proteger.

Especialistas locais reforçam a dificuldade de acesso a dados precisos sobre o tema e vão além: “a dificuldade para trabalhar dados criminais é uma discussão nacional. No Recife, a sistematização e a padronização de informações relativas a crimes, mesmo com melhoras nos últimos anos, também são deficientes, porque os dados são produzidos em diversas instâncias no âmbito do Sistema de Justiça, além das subnotificações”, afirma um estudioso da área. “Seria preciso uma maior exatidão na apuração desses eventos e uma integração efetiva entre as diversas instâncias envolvidas nesse tipo de levantamento, para que todos os dados fossem cruzados”, completa outro especialista ouvido pelo Observatório do Recife.

Segundo eles, as chamadas pesquisas de vitimização são outro importante meio para levantar informações relevantes sobre o tema. Nesse caso, os órgãos de controle é que recorrem a uma amostra aleatória da população em busca de levantar dados (por meio da aplicação de questionários), para então confrontá-los com as estatísticas oficiais, visando superar as falhas decorrentes da subnotificação.

Os depoimentos acima nos ajudam a concluir que, na prática, o País até tem os dados, mas não os transforma em informação. “Eu diria que transformamos parcialmente os dados de que dispomos em informações, mas a sua utilização para a contenção e a prevenção ao crime ainda é reduzida”, afirma um estudioso da área. E isso tem repercussão direta na formulação e adoção de políticas de segurança, na atuação das polícias e, consequentemente, na qualidade de vida das populações. Na realidade do Recife, os especialistas afirmam que é fundamental que os levantamentos busquem apurar informações que possam ajudar a sociedade a responder os seguintes questionamentos: quem está morrendo e quem está matando? Onde ocorrem esses crimes e qual o perfil das vítimas e dos agressores: sexo, idade, cor da pele, classe social, nível de escolaridade? É preciso entender como o crime ocorre para preveni-lo e combatê-lo.

A nossa guerra civil – Embora estejamos vivenciando uma tendência de redução nos índices de violência no Recife nos últimos anos, os números ainda são bastante altos e a segurança permanece como uma das principais preocupações no cotidiano da população local. Mesmo diante da dificuldade de apurar dados sobre violência e mensurar o impacto dessa realidade sobre a qualidade de vida da população do Recife, alguns indicadores nos auxiliam na tentativa de compreender melhor a nossa realidade:

Crimes violentos letais e intencionais (CVLI)

Definição: crimes contra a vida com intenção de matar. Casos de homicídio doloso, roubo seguido de morte (latrocínio) e lesão corporal seguida de morte, por cem mil habitantes.

Historicamente, a ocorrência de crimes violentos letais e intencionais no Recife vem diminuindo. Em 2007, o indicador apontava para uma prevalência de alarmantes 68,02 casos por grupo de cem mil pessoas. Já em 2009 (último dado disponível), houve uma redução para (ainda preocupantes) 52,01 casos por cem mil. Em números absolutos, em 2007, foram 1.046 mortos (uma média de 2,86 pessoas por dia), enquanto que em 2009 foram 818 (uma média de 2,24 por dia).

É importante registrar que, embora os dados sobre CVLI indiquem uma melhoria nos números computados, é preciso olhar tudo como uma tendência. Isso porque nem todo crime (relatado primeiramente em um boletim de ocorrência policial) resulta imediatamente em morte (computada no atestado de óbito). São critérios diferentes, que resultam em dados discrepantes.

Crimes violentos contra o patrimônio

Definição: casos de roubo, extorsão mediante sequestro e roubo e extorsão com restrição da liberdade da vítima (sequestro relâmpago), por cem mil habitantes.

Os crimes violentos contra o patrimônio são aqueles feitos com abordagem das vítimas sem resultar em morte (roubo, sequestro e sequestro relâmpago). De acordo com os dados dos boletins de ocorrência, o número de casos vem caindo nos últimos anos no Recife: de 35,7 mil em 2007 para 27,9 mil em 2009. “É importante ressaltar que esses dados compreendem altos níveis de subnotificação e que a denuncia desse tipo de crime é fundamental para ajudar a visibilizá-lo e a orientar políticas públicas de contenção”, afirma um entrevistado.

Homicídio

Definição: casos de morte por homicídio, segundo o atestado de óbito, para cem mil residentes, no ano considerado.

Dados sobre homicídio na nossa cidade, sistematizados pelo Observatório do Recife, dão conta de um cenário que, apesar de todos os esforços, ainda não conseguimos deixar para trás. Em2008, adesconfortável colocação do Recife em penúltimo lugar no ranking de capitais brasileiras (incluindo o Distrito Federal) em quantidade de homicídios nos chama a atenção para números comparáveis aos de uma pequena guerra civil não declarada, revelando um dos problemas mais críticos do Recife.

Historicamente, houve uma redução nesses números, mas, ainda assim, a cidade permanece entre as capitais mais violentas do País. Dados de 2005 mostram que a ocorrência de homicídios no Recife era de 66,76 por grupo de cem mil habitantes. Já em 2009, para cada cem mil habitantes, praticamente de 58 (57,18) pessoas morreram, com dados ainda sujeitos a revisão.

Homicídio juvenil masculino

Definição: casos de morte por homicídio de homens de16 a24 anos, segundo o atestado de óbito, para cem mil residentes desse sexo e faixa etária, no ano considerado.

A taxa de homicídio juvenil masculino (homens de16 a24 anos) é um dos mais significativos indicadores de violência, porque é nessa faixa etária e gênero que se concentram a maior parte dos crimes. Na comparação feita com dados de 2008, o Recife aparece em penúltimo lugar entre as capitais (só fica à frente de Maceió-AL). Como no caso de homicídio em geral, registra-se queda no índice em 2009, com esse dado ainda sujeito a revisão.

Essas informações nos levam a pensar em outros indicadores nos quais alguns dados se encontram em interseção – como Educação, Trabalho, renda e desigualdade e a própria situação das juventudes da nossa cidade – e em consequências que só reforçam o quadro de um Recife que se tornou um perigo iminente para a próxima geração.

As soluções não são nem fáceis nem simples, mas acreditamos que a leitura desses indicadores pode permitir às pessoas rediscutir seu papel na sociedade no que diz respeito à participação em espaços de discussão e de ação em busca de uma cidade melhor. Esperamos poder ampliar os resultados obtidos no último ano na próxima edição da Cartilha de Indicadores do Recife.

Colaboraram:

Rafael dos Santos Fernandes – Sociólogo e mestrando em Administração pela Universidade Federal de Pernambuco, membro do GT de Mobilidade do Observatório do Recife e pesquisador na área de segurança pública.

Rayane Maria de Lima Andrade – Socióloga, doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, membro do GT de Segurança do Observatório do Recife e pesquisadora na área de segurança pública e criminalidade.